O calor que não se encaixa num domingo de inverno, rendeu bons frutos para a colheita.
Os pedais a girar, o vento e o pertencimento.
O céu estava sem as pipas, somente fios.
Sendo a redoma que é. É?
Se for redoma, forçar-me para fora dela será preciso.
Tão preciso quanto eu preciso.
As palavras latentes – a dar voltas – misturam-se.
Separam-se. Ajustam-se. Diluídas e também sólidas.
E a sonoridade que só o vento junto à solitude consegue expressar, coleciono.
E de outras sonoridades que audíveis no concreto,
“Cambia lo superficial
Cambia también lo profundo
Cambia el modo de pensar
Cambia todo en este mundo
Cambia el clima con los años
Cambia el pastor su rebaño
Y así como todo cambia
Que yo cambie no es extraño
Cambia el más fino brillante
De mano en mano su brillo
Cambia el nido el pajarillo
Cambia el sentir un amante (…)”*
Me fazem lembrar de manhãs; de transportes; de ideias:
cá estamos, cidadãos do novo mundo
de forma imperceptível – talvez a nós apenas – nossos corpos estão aqui
da forma em que vos deixaram
a estranheza de olhar-se através de um espelho e se ver: história.
nossa genética é puramente história.
em nossas almas, bagagens extensas.
histórias e mais histórias
somos o reflexo do que já fomos,
olhos e mãos à frente.
olhos estes que não negam o que já viram,
as mãos sem saber o que já tocaram.
olhos, mãos (e pés!)
com a chance de engrandecer vossa alma
no sentido que vai de encontro ao equilíbrio;
olhar-se no espelho transcende o reflexo. **
Através do movimento, o cansaço do pensar torna-se físico,
Fazendo das dúvidas, dos medos e ânsias uma exclamação menor.
Deste momento em diante há o retorno do pulsar
E de sentir por pulsar, estar pulsando.
* – (Mercedes Sosa, Todo Cambia).
**- escritos livres de 09/06/2014.